Poesias de Helena Kolody


A LÁGRIMA   (seu primeiro poema)


 

Oh! lágrima cristalina
Tão salgada e pequenina
Quanta dor tu redimes
Mesmo feita de amarguras
És tão sublime tão pura
Que só virtudes exprimes.

 



LIÇÃO

A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.
Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.
De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.
Helena Kolody – “Poesias escolhidas”
(em português e ucraniano).




SONHAR

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante Paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar constantemente o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.




Música Submersa


Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura
Na mata silenciosa.



NAVEGANTE

Navegou
no veleiro dos livros.

Desembarcou
e conferiu.

E o mundo que viu
não era o que imaginou.

   (em Viagem no Espelho)







INFÂNCIA 

Aquelas tardes de Três Barras,
Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,
Era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
Leite crioulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
“Mais bom dia, Vossa Senhoria”...
“Bom barqueiro! Bom barqueiro...”
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.

Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras.
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras!
(Helena Kolody, in A Sombra no Rio, 1951)


PELOS BAIRROS ESQUECIDOS

Pelos bairros esquecidos,
tantos passos,
tantos risos,
tantos sonhos perdidos!
(Helena Kolody, in Ontem Agora, 1991)

DOM 

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.
(Helena Kolody, in Poesia Mínima, 1986)

CHAMA

Chama do Absoluto,
arde o verbo em nossa lâmpada humilde.
(Helena Kolody, in Sempre Palavra, 1985)

ÂMAGO

Quem bebe da fonte
que jorra na encosta,
não sabe do rio
que a montanha guarda.
(in Sempre Palavra, 1985)


 MERGULHO

Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude.
( in Sempre Palavra, 1985)


PRECE

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.
( in Paisagem Interior, 1941)


VIGÍLIA

A noite é profunda,
Silente e de trevas.

Ao lado de teu corpo, imóvel e sereno,
Estou a contemplar-te, Pai.

Por estranhos caminhos,
Cheios de neblina,
Anda minh’alma soluçante,
A clamar por ti.

Teus olhos fitam muito longe
Um olhar imensamente triste.

A chama dos círios dança sem cessar
Em tuas pupilas mortas,
Tentando desviar tua mirada
De um ponto fixo na eternidade.

Círio recôndito,
Arde meu coração e se consome.

Há longos espinhos aguçados
Esgarçando meus nervos sensíveis.

Beijo tuas mãos pálidas e tristes,
Humildes mãos cansadas,
Agora consteladas
Por líquidos brilhantes.

Por estranhos caminhos,
Cheios de neblina,
Anda minh’alma soluçante,
A clamar por ti.
(in Paisagem Interior, 


POESIA MÍNIMA

Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.
(Helena Kolody, in Poesia Mínima, 1986)


POETA

O poeta nasce no poema,
inventa-se em palavras.
( Infinito Presente, 1980)


CIRCUITO

Os olhos que mergulham no poema
completam o circuito da poesia.
(in Infinito Presente, 1980)


MOTIVO CIBERNÉTICO

Polimultiplurimáquinas
estiram os nossos nervos
nos giros da exatidão.

No campo vibrante
de circuitos e painéis,
tecniscravos apascentam
rebanhos sagrados
de monstros eletrônicos.
(Helena Kolody, in Tempo, 1970)


INTERCORRÊNCIA

Entre o gesto e a sombra,
há luz e distância
e uma geometria
de ângulos e planos.
(in Tempo, 1970)


SEMPRE MADRUGADA 

Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.
(in Sempre Palavra, 1985)


ANOITECER

Amiudam-se as partidas...
Também morremos um pouco
no amargor das despedidas.

Cais deserto, anoitecemos
enluarados de ausências.
(in Infinito Presente, 1980)



ARAUCÁRIA

Araucária,
Nasci forte e altiva,
Solitária.
Ascendo em linha reta
- Uma coluna verde-escura
No verde cambiante da campina.

Estendo braços hirtos e serenos.

Não há na minha fronde
Nem veludos quentes de folhas,
Nem risos vermelhos de flores,
Nem vinhos estonteantes de perfumes.
Só há o odor agreste da resina
E o sabor primitivo dos frutos.

Espalmo a taça verde no infinito.
Embalo o sono dos ninhos
Ocultos em meus espinhos,
Na silente nudez do meu isolamento.
(in Paisagem Interior, 1941)




A POESIA IMPOSSÍVEL

Inquietação de marinheiro
Que sente o mar e seu chamado...
Não poder embarcar!

Prisioneiro do nada,
Pássaro mutilado
Que a distância fascina...
(in Vida Breve, 1964)

CANÇÃO DE NINAR

(para uma criança da favela)

Criança, és fio d’água
Triste desde a fonte,
Humilde plantinha
Nascida em monturo:
Quanta ausência mora
Nesse olhar escuro!

Recosta a cabeça
Na minha cantiga.
Deixa que te envolva,
Que te beije e embale.
(in Vida Breve, 1964)


IDENTIFICAÇÃO

Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.
(in Paisagem Interior, 1941)


BOLA DE CRISTAL  

Se interrogas o passado,
mente o cristal da memória
para tornar-te feliz.
( in Infinito Presente, 1980)



ADVERTÊNCIA 

É meio-dia em minha vida.
Um mensageiro inesperado
Vem prevenir que apresse a lida,
Como se fosse anoitecer.

Vento da noite, ainda é cedo!
... e nem lavrei a terra agreste.
(in A Sombra no Rio, 1951)







Poemas retirados de Viagem no Espelho, de Helena Kolody.)

RESSONÂNCIA 

Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

FLECHA DE SOL 

A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.


NOITE 

Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.


SAUDADES 

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.


REPUXO ILUMINADO 

Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.


DEPOIS 

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.


ALQUIMIA 

Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.


JORNADA 

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.


SEMPRE MADRUGADA 

Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.


RETRATO ANTIGO (1988)

Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?


VOZ DA NOITE (1986)

O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.
A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece...


A MIRAGEM NO CAMINHO (1978)

Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).


DOM

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.


POESIA MÍNIMA
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.



Em 1941 Helena Kolody, com 29 anos de idade, publicou o  seu primeiro livro, Paisagem Interior, com 45 poemas, entre estes, três eram haicais. O mais conhecido:



Arco-íris
Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.





E mais estes dois:

Prisão
Puseste a gaiola
Suspensa dum ramo em flor,
Num dia de sol.


Felicidade

Os olhos do amado

Esqueceram-se nos teus,

Perdidos em sonho.
HELENA KOLODY



HELENA KOLODY



AREIA

Da estátua de areia,
nada restará,
depois da maré cheia.


HAI-KAIS

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.

Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.

Festa das Lanternas!
Os ipês estão luzindo
De globos cor-de-ouro.

Corrida no parque.
O menino inválido
aplaude os atletas.

Nas flores do cardo,
leve poeira de orvalho.
Manhã no deserto.

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.


ANTES

Antes que desça a noite,
imprimir na retina
         os rostos amados,
                   o sol
         as cores,
o céu de outono
e os jardins da primavera.

Inundar de sons
         de vozes
e de música eterna
         os ouvidos
antes que os atinja
         a maré do silêncio.

Conquistar
os pontos culminantes
                   da vida,
         antes que se esgote
   o prazo de permanência
em seu território sagrado.


PÂNICO

Não há mais lugar no mundo.
Não há mais lugar.

Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro

Nos longes, pesam tormentas.
Rolam soturnos ribombos.

Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.


LIMIAR

I
Da soturna jornada
Pelas brumosas sendas
Da anestesia,
Não guardei memória.

Sou um pêndulo que oscila
Dos limites da vida
Aos limites da morte.

Rubros lobos me espreitam silentes,
Numa densa garoa vermelha
Que lateja no ritmo da febre.

Venho à tona, por segundos,
E volto ao limo do sono.

Da sede, brota em meu sonho uma fonte:
Água fria em chão de pedra.
No fundo, uma alga se espreguiça
E essa alga sou eu. 

II
Luminosa alegria de olhar!
De todos os lados, o apelo do verde,
Da vida verde e serena.
Aquele cipreste
Que gesticula e dança,
Acorda-me na lembrança
Reminicências vegetais:
Pequenino fremir de relva
No dorso dos campos;
Altos pinheiros imóveis;
Floresta oceânica e múrmura.
Festivo apelo do verde,
da vida verde e serena.

Ventura elementar de estar ao sol,
Viva e sem dor.


FLAMA

Na flama divina
que em nós resplandece,
palpita a alegria
de ser para sempre.


ABISMAL

Meus olhos estão olhando
De muito longe, de muito longe,
Das infinitas distâncias
Dos abismos interiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
Para você que está diante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.


MAQUINOMEM

O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.
As hemácias de seu sangue
são redondos algarismos.

Crescem cactos estatísticos
em seus abstratos jardins.

Exato planejamento,
a vida do maquinomem.
Trepidam as engrenagens
no esforço das realizações.

Em seu íntimo ignorado,
há uma estranha prisioneira,
cujos gritos estremecem
a metálica estrutura;
há reflexos flamejantes
de uma luz imponderável
que perturbam a frieza
do blindado maquinomem.


EXILADOS

Ensimesmados,
olham a vida
como exilados
fitando o mar.

Não estão no mundo
como quem o habita.
Estão de visita
num planeta estranho.


TRANSEUNTES

Transeuntes
da vida provisória:
que rumor de asas eternas
para além das fronteiras e dos símbolos!


OSCILAÇÃO

A cada oscilar do pêndulo
algo se apaga
ou para nós termina.

De segundo em segundo,
algo germina
ou para nós floresce.


JOVEM

Suporta o peso do mundo. 
E resiste.

Protesta na praça.
Contesta.
Explode em aplausos.

Escreve recados
nos muros do tempo.
E assina.

Compete
no jogo incerto da vida.

Existe.


VÔO CEGO

Em vôo cego,
singro o nevoeiro.
Onde o radar que me guie?

Perco-me em labirintos interiores.
Que mistérios defendem
tantas portas seladas?

Quem me cifrou em enigmas?

  
FUGITIVO INSTANTE

Captar os seres
em seu fugitivo instante de beleza.



GRAFITE
1988

Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.

Choveu,
sumiu.


ESPELHISMO
1988

Olhou numa poça d'água
e viu a mão estendida.

Alongou a própria destra,
num impulso de acolhida

Mas, a mão tocou em nada

Era, apenas, refletida
no espelho da água parada,
a sua mão estendida.


LOUCURA LÚCIDA
1988

Pairo, de súbito,
noutra dimensão

Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.


MENTIRA
1988

Mentira que as rosas
Rosas são de veludo.
São da roseira, os espinhos.


ALEGRIA DE VIVER
1987

Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.


SEM AVISO
1988

Sem aviso,
o vento vira

uma página da vida


TERNURA-MENINA
1988

Saudade,
ternura-menina,
lua cheia sobre o mar.

Navego no seu quebranto,
sem vontade de voltar.

                   (De Reika, 1993)

HELENA KOLODY
TEMPO

Cai a areia da vida
Na ampulheta da morte.


ILHAS

Somos ilhas no mar desconhecido.

O grande mar nos une e nos separa.

Fala de longe o aceno leve das palmeiras.
Mensagens se alongam nas líquidas veredas.

Cada penhasco é tão sozinho e diferente!
Ninguém consegue partilhar a solidão.

Ilhas no grande mar, aprisionadas.
Apenas o perfil das outras ilhas, vemos.

Só Deus conhece nossa exata dimensão.


FIM DE JORNADA

Caminhar ao encontro da noite.
Como o camponês regressa ao lar.
Após um longo dia de verão.

Sem pressa ou cuidado.
Na tarde ouro e cinza.
Sozinho entre os campos lavrados.
E as colinas distantes.

Caminhar, ao encontro da noite.
Sem pressa ou cuidado.
A noite é somente uma pausa de sombra.
Entre um dia e outro dia.

                   (De Vida Breve, 1964)



ATAVISMO

Quando estou triste e só, e pensativa assim,
É a alma dos ancestrais que sofre e chora em

/mim.
A angústia secular de uma raça oprimida
Sobe da proíünde2a e turva a minha vida.

Certo, guardo latente e difusa em meu ser,
A remota lembrança dos dias amargos
Que eles viveram sem a ansiada liberdade.
Eu que amo tanto, tanto, os horizontes largos,
Lamento não ser águia ou condor, para voar
Até onde a força da asa alcance a me levar.
Ante a extensão agreste e verde da campina,
Não sei dizer por que, muitas vezes, senti
Saudade singular da estepe que não vi.

Pois, até o marulhar misterioso e sombrio
Da água escura a correr seu destino de rio,
Lembra, sem o querer, numa impressão falaz,
O soturno Dnipró, cantado por Taras...

Por isso é que eu surpreendo, em alta
/intensidade,
Acordada em meu sangue, a tara da saudade

                   (De Paisagem Interior, 1941)


Tempo
Cai a areia da vida
Na ampulheta da morte.

Sem aviso
Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida

Grafite
Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.

Choveu,
sumiu.

Pânico
Não há mais lugar no mundo.
Não há mais lugar.

Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro

Nos longes, pesam tormentas.
Rolam soturnos ribombos.

Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.


             Haikais:                      Seu nome de haicaísta era Reika

Último
Vôo solitário
na fímbria da noite
em busca do pouso distante.
.
Alegria
Trêmula gota de orvalho
presa na teia de aranha,
rebrilhando como estrela.
.
Flecha de sol
A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.
.
Ipês floridos
Festa das lanternas!
Os ipês se iluminaram
de globos de cor-de-ouro.
.
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.
.
Qual?
Damos nomes aos astros…
Qual será nosso nome
nas estrelas distantes?
.
Poesia mínima
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.
.
Manhã
Nas flores do cardo,
leve poeira de orvalho.
Manhã no deserto.
.
Idade
A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.



FIO D´ÁGUA



 ”Não quero ser o grande rio caudaloso
 Que figura nos mapas.


 Quero ser o cristalino fio d’água
 Que canta e murmura na mata silenciosa.”


(in Sinfonia da Vida)





RESSONÂNCIA

Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

FLECHA DE SOL 

A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

NOITE 

Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

SAUDADES
.


Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades

REPUXO ILUMINADO 


Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.


DEPOIS 


Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

ALQUIMIA 


Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.


JORNADA 


Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.


SEMPRE MADRUGADA 


Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.


RETRATO ANTIGO (1988)


Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?


VOZ DA NOITE (1986)


O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.
A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece...


A MIRAGEM NO CAMINHO (1978)


Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).


DOM


Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.


POESIA MÍNIMA
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

Carroça de tolda

Cedo, a carroça
Já vai na estrada.
Vai a parelha
Bem ajaezada:
Franja de guizos
Pela testada...
Cantam os guizos
Na madrugada.

Parece, a tolda,
Lenço de lona.
De lenço branco
Vai a colona.
Pelo arvoredo,
Há uma neblina,
Que é um alvo lenço
De musselina.

Rosto curtido,
Mão calejada,
Guia a colona
Lenta e calada.
Geme a carroça,
Tão carregada!
Cantam os guizos
Na madrugada...




 INFÂNCIA (1951)


Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...



RIO DE PLANÍCIE (1941)


Minha vida é um largo rio de águas mansas


SONHAR (1941)


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Num vôo poderoso e audaz de fantasia.



ELOGIO DO POETA (1941)


Quando os homens viram os olhos do poeta,
Acharam em sua luz a luz do próprio olhar
E no seu sonho o próprio sonho refletido.
No ritmo de seu verso, então, reconheceram
A canção que cantariam, se soubessem cantar.





CÂNTICO ( 1941)


A luz do teu olhar é a estrela solitária
Da noite deste amor, que é feito de silêncio.



VITÓRIA ÍNTIMA (1941)


Como a penumbra da noite,
A meditação desceu em seu olhar
E acendeu dentro de mim a lâmpada serena.


11 comentários:

  1. Ainda beeem qe teein esse site kk teenhu 3 trabalahos pra faseer sobre ela e meeu colégio chama Helena Kolody

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  2. Tenho um livro nas mãos, intitulado Correnteza. A dedicatória poetica de Helena Kolody prenuncia o conteúdo: " ... Carinhosamente ofereço esta correnteza de sonho e lembrança." Ela fez de sua estrela um Sol.

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    1. Acabei de conhecer a poetiza... estou encantada. Me reconheço nela, e minha solidão acaba quando a declamo, amo. Ada

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    2. Ada. Fico feliz por você gostar dos poemas de Helena Kolody. Eu tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente e ela exalava poesia, os versos saíam dela livremente, ela não ficava horas para criar um poema. Ela era poetisa com naturalidade!! Abraço!

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  3. Lindos os poemas de Helena. De uma importância ímpar na nossa cultura!

    Muitos dos meus têm ela como inspiração: www.gaiapalavra.blogspot.com

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    1. Com certeza, Helena Kolody nasceu literalmente poetisa, dom de Deus, ela fluia poesia com a maior facilidade... vou acrescentar seu link neste blog.

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  4. Encantada por conhecer Helena Kolody (e envergonhada por só agora fazê-lo). O triste é que não encontro um único livro seu à venda aqui no Rio de Janeiro

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  5. Não fique envergonhada não. Creio que a mídia tem grande parte de culpa nisto. Mas creio que a solução para a compra de livros de Helena Kolody seja a compra por internet para obter livro usado, como pelo site do mercado livre ou outro semelhante, pois não há muitos livros dela disponíveis nas livrarias. Agradeço a visita ao blog.

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  6. Quem conheceu a poetisa pode sentir-se muito feliz. Em 1997 tive o privilégio de hospedá-la em minha casa por dois dias, ocasião em que um Colégio na cidade de Terra Boa, cujo traz o seu nome, promoveu um concurso de poesia, intitulado Concurso de Poesias, "PREMIO HELENA KOLODY", mal sabia eu que o premio maior seria meu. Hospedar um Anjo!

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