Olavo Bilac - Poemas eróticos







DELÍRIO

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!


Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.


Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.


No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....







DEIXA O OLHAR DO MUNDO


Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos!
Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais!
Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.

UM BEIJO

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...



A ALVORADA DO AMORUm horror grande e mudo, um silêncio profundo 
No dia do Pecado amortalhava o mundo. 
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo 
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo, 
Disse: 

"Chega-te a mim! entra no meu amor, 
E à minha carne entrega a tua carne em flor! 
Preme contra o meu peito o teu seio agitado, 
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado! 
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto, 
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto! 

Vê! tudo nos repele! a toda a criação 
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação... 
A cólera de Deus torce as árvores, cresta 
Como um tufão de fogo o seio da floresta, 
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios; 
As estrelas estão cheias de calefrios; 
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu... 

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu, 
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos! 
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos; 
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos; 
Surjam feras a uivar de todos os caminhos; 
E, vendo-te a sangrar das urzes através, 
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés... 
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto, 
Ilumina o degredo e perfuma o deserto! 
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido, 
Levo tudo, levando o teu corpo querido! 

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar: 
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar, 
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas, 
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas! 
Rosas te brotarão da boca, se cantares! 
Rios te correrão dos olhos, se chorares! 
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu, 
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu, 
Agora que és mulher, agora que pecaste! 

Ah! bendito o momento em que me revelaste 
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime! 
Porque, livre de Deus, redimido e sublime, 
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus, 
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!" 

Olavo Bilac, in "Poesias"
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PECADOR
Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta, 
E, calmamente, o copo de veneno 
Aos lábios frios sem tremer levanta. 

Tonto, no escuro pantanal terreno 
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta, 
Nem assim, miserável e pequeno, 
Com tão grandes remorsos se quebranta. 

Fecha a vergonha e as lágrimas consigo... 
E, o coração mordendo impenitente, 
E, o coração rasgando castigado, 

Aceita a enormidade do castigo, 
Com a mesma face com que antigamente 
Aceitava a delícia do pecado. 
   (in "Poesias")








Um comentário:

  1. Sensacional, nenhum elogio escrito por meras palavras bastariam para descrever a obra de Olavo Bilac!

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